Diversidade em foco

A quinta edição do For Rainbow – Mostra de Cinema e Cultura difunde a diversidade sexual em telas e palcos de Fortaleza

Temas referentes ao universo gay estiveram sempre pontuados na história do cinema. Seja o encantamento pela beleza juvenil do mesmo sexo registrado em “Morte em Veneza”, do fim da década de 60, seja em memoráveis películas como “Priscila, a Rainha do Deserto” (1994) ou filmes mais recentes, dramas e biografias que se propuseram sair do estereótipo para um mergulho na vida e nos embates cotidianos, caso de “Transamerica” (2005), o emocionante “Milk” (2008) e o brasileiro “Madame Satã” (2002), dirigido pelo cearense Karim Aïnouz.

Estabelecendo-se no calendário de Fortaleza, diversidade sexual e Sétima Arte se encontram novamente na quinta edição do For Rainbow – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual, com oito dias de programação locada na Casa Amarela Eusélio Oliveira, na Biblioteca Dolor Barreira, e das boates Donna Santa e Unique Club.

Mostra

Expandindo seu alcance ao longo dos anos, este ano, o For Rainbow recebe pouco mais do que o dobro de filmes exibidos no evento de estreia, que selecionou 21 produções. São 54 filmes, em ficção, documentário, musicais e experimentais, todos relacionados à temática LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros).

No dia 28 de outubro, a estreia da programação audiovisual acontece com a exibição do filme “Janaína Dutra – uma dama de ferro”, na Biblioteca Dolor Barreira. O documentário reconstitui a história da advogada transexual, natural de Canindé, cujo trabalho serviu de referência para a elaboração do projeto federal Brasil Sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra LGBTs e de Promoção da Cidadania Homossexual.

A mostra competitiva, dividida entre curtas e longas metragens, será exibida na Casa Amarela entre os dias 29 de outubro e 02 de novembro. Entre os longas, destaca-se o brasileiro “Como Esquecer”, que abre a mostra na sexta-feira. Com Ana Paula Arósio vivendo a protagonista Júlia, o longa, baseado em um livro autobiográfico de Miriam Campello, conta a tentativa de reconstrução da vida de uma professora de língua inglesa após o duradouro relacionamento com Antônia.

No dia 30 de outubro, sábado, é a vez do longa “8 semanas”, musical argentino, com elementos de ficção, comédia e documentário. Dirigido por Diego Schipani e Alejandro Montiel, o filme acompanha as idas e vindas de um grupo nos bastidores de um musical.

Outra amostragem da diversidade brasileira produzida para as telas é o drama “Vamos fazer um brinde”, que será exibido no dia 31 de outubro, domingo. Com elenco dominado por atores negros, o filme trata com delicadeza o reencontro de um grupo de amigos em pleno réveillon de Copacabana.

Do Reino Unido, apresenta-se na segunda-feira “Release”, que trata do drama de um padre abandonado por sua congregação, que encontra proteção em um carcereiro.

O encerramento, por sua vez, acontece com a produção vencedora de sete prêmios no XV Cine PE: “Estamos Juntos”, do diretor Toni Venturi, que conta no currículo com o elogiado “Rita Cadillac – A Lady do Povo”. Com Cauã Reymond e Leandra Leal no elenco, o filme retrata a disputa entre um DJ homossexual e sua melhor amiga por um músico argentino.

Na categoria curtas-metragens, 26 filmes (18 nacionais e 8 estrangeiros) concorrem ao troféu Arthur Guedes. Entre eles, destaque para as duas animações brasileiras: “Brecha” e “O Reino do Chocolate”. A partir das 16 horas, a edição dá continuidade a Mostra Internacional, com curadoria da argentina Violeta Uman.

Atrações

Além da exibição de filmes, o festival ainda apresenta espetáculos de teatro, dança, música, exposição multimídia de artes visuais e a mostra educativa, que levará apresentações e debates aos centros culturais da Região Metropolitana de Fortaleza. Na Casa Amarela, além da mostra audiovisual, fica em cartaz “Exposições Virtuais”, com fotos de Sidney Souto e quadros de Lídia Rodrigues.

Na quinta-feira, dia 27, a abertura do evento acontece em grande estilo, direcionando os holofotes da boate Donna Santa às musas. A partir das 20h, sobem ao palco Elke Maravilha, Marta Aurélia e Banda, e Macaúba do Bandolim.

Os 2kg de alimentos cobrados como ingresso serão doados para a Associação de Voluntários do Hospital São José. Já no encerramento, dia 03 de novembro, é a vez de reunir os participantes na boate Unique Club onde, entre outros, se apresenta a transformista Rogéria – um dos ícones gays do Brasil.

Ex-maquiadora da antiga TV Rio, Rogéria tornou-se conhecida pelas muitas participações na TV e no cinema. Já Elke Maravilha, atriz e modelo russa, naturalizada alemã, mas brasileira de coração, tornou-se um símbolo entre travestis e transformistas pelas roupas e perucas que utiliza. Assim como Rogéria, seu reconhecimento esteve aliado sobretudo às aparições na televisão, em programas de auditório.

Homenagens

Serão homenageados no 50 For Rainbow pessoas que contribuem para a causa LGBT, seja por sua atuação cultural ou por sua militância pública em favor do movimento LGBT.

Estão previstas honras aos cineastas Wagner de Almeida (dia 27 de outubro) e Luiz Carlos Lacerda, o Bigode (dia 30 de outubro), as cantoras Elke Maravilha (dia 27 de outubro) e Rogéria (dia 03 de novembro), as ativistas cearenses Andrea Rosati e Luanna Marley (dia 01 de novembro) e ao baiano Nonato Freire (dia 27 de outubro), dono do bar Coração Materno, um dos bares vanguardistas de Fortaleza. A premiação dos filmes vencedores, que recebem o troféu Arthur Guedes, acontece no dia 3 de outubro, na boate Unique Club.

MAYARA DE ARAÚJO
REPÓRTER

Primeiro dia

Sexta-feira, 28/10

14h – Exibição Mostra Educativa. Local: CRAS – Sede Caucaia

Depois de tudo – 12´ fic RJ 2008. Direção: Rafael Saar

E agora Luke? – 4″ ani RJ 2010. Direção: Alan Nóbrega

Homofobia,lesbofobia e transfobia – 8´ doc DF 2008. Direção: Felipe Fernandes

On my own – 4´ exp CE 2008. Direção: Yuri Yamamoto

Felizes para sempre – 7´ doc SP 2009. Direção: Ricky Mastro

Que mulher é essa? – 20´ doc CE 2009. Direção: Cecília Goes e Gabi Lima

19h – Exibição Especial: Janaína Dutra, Uma Dama de Ferro – 50´ doc CE 2011. Direção: Vagner Almeida. Local: Biblioteca Dolor Barreira

O cinema por um mundo sem preconceito

Em sua quinta edição, o For Rainbow insere mais uma vez Fortaleza entre as cidades, nacionais e internacionais, onde se trava louvável luta contra a discriminação e o preconceito, através de relevante mostra cinematográfica na qual se reafirma o poder da linguagem audiovisual como instrumento de difusão da cultura, sem tarjas ou retrógradas limitações.

Após décadas de uma censura equivalente aos rígidos padrões medievais, a palavra “homossexual” foi pronunciada pela primeira vez no cinema há exatos 50 anos, no filme inglês “Meu Passado me Condena”, de Basil Dearden, em que o ator Dirk Bogarde interpretava uma vítima de chantagens por causa de sua oculta opção erótica.

A partir de então, ainda foi percorrido um longo caminho para que a expressão da diversidade fosse claramente abordada na Sétima Arte, sem ranços e estereótipos notórios. Durante muitos anos ainda, os personagens homoafetivos foram quase sempre apresentados como possuidores de tendências marginais ou doentias, vide o major assassino interpretado por Marlon Brando em “O Pecado de Todos Nós”, ou o dúbio policial vivido por Al Pacino no preconceituoso “Parceiros da Noite”. Sob outro aspecto, havia (e ainda há bastante, sobretudo nos programas humorísticos da TV) a apresentação de uma face caricatural e afetada, apelando para o deboche no sentido de fazer o público não levar a sério a identidade sexual dos personagens e enquadrá-los no secular conceito de “bobos da corte”.

Atualmente, a temática da homoafetividade não se restringe à visão maniqueísta de um passado recente. Até mesmo países onde anteriormente vigorava uma discriminação sexual mais severa, como Israel, México e Egito, já abordam a questão com maior abertura, ainda que por vezes sob certa visão complacente e “concessiva”. A existência do For Rainbow, em meio ao machismo tipicamente nordestino de Fortaleza, funciona como um eco do incentivo hoje universalizado à liberdade de expressão, à cultura solidária e, sobretudo, ao respeito à diversidade humana.

JOSÉ AUGUSTO LOPES
JORNALISTA E CINÉFILO