Aposentado incentiva o hábito da leitura

Há cinco anos, Eliomar Alves transformou uma sala de casa em uma espécie de sebo ou livraria informal

Iguatu. Uma iniciativa inédita procura contribuir para a divulgação da leitura de obras novas e usadas entre os moradores desta cidade, localizada na região Centro-Sul. Há cinco anos, o aposentado do serviço público estadual, Eliomar Alves, transformou uma sala da casa dele, que dá acesso direto à Rua 15 de Novembro, no Centro, em uma espécie de sebo ou livraria informal. A novidade é o aluguel das obras literárias. Essa modalidade tem despertado e atraído a atenção dos leitores.

O gosto pela leitura de obras clássicas da literatura nacional e estrangeira, em particular por biografias, cultivado ao longo da vida, contribuiu para que na terceira idade, Eliomar Alves, encontrasse uma forma de ocupar o tempo, com atividade laboral e de lazer.

O projeto começou pequeno com reduzido número de volumes, mas hoje se expandiu e já ocupa meia dúzia de prateleiras, na sala que lembra mais um corredor comprido.

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Além de livros de literatura e didáticos, na casa de Eliomar Alves, existem algumas peças de artesanato e diversos quebra-cabeças à venda. Vem atraindo leitores cada vez mais
FOTO: HONÓRIO BARBOSA

VolumesNão há uma organização com critério bibliotecário, mas o aposentado sabe onde encontrar cada volume, dispostos nas prateleiras, e guardados em sacos plásticos para evitar a poeira. O preço do aluguel de qualquer obra é de R$ 0,20 por dia. Esse mesmo valor é mantido desde o início do projeto. “Não é um empreendimento para dar lucro, mas uma forma de lazer ocupacional e cultural”, explica Eliomar Alves. “O meu objetivo é contribuir com a leitura e a minha preocupação é que os jovens deveriam ler mais”.

Gosto pela leitura

Na estatística particular do livreiro, os que mais compram e alugam livros são pessoas acima de 40 anos. “Parece que os jovens não gostam mais de ler livros”, observa. “Existem muitos poemas bons, histórias interessantes que são desconhecidas pela juventude”. Em poucos minutos de conversa, o idealizador do projeto relaciona vários autores e livros que aponta como fundamentais para a formação do conhecimento cultural.

O preço de venda dos livros é variável e o livreiro não se limita a ficar sentado, esperando a visita de um possível comprador. Diariamente, coloca algumas publicações em uma sacola e percorre ruas do Centro da cidade, oferecendo as obras para compra ou aluguel. “Ainda hoje existem aqueles que se surpreendem quando falo em alugar livro, pagando um valor diário”, comenta ele. “A maioria prefere comprar”.

Satisfação

Apesar das dificuldades e do limitado número de leitores, Eliomar Alves disse estar satisfeito com o trabalho que faz e quer se manter na atividade por mais tempo. Não pensa em parar e sempre está adquirindo publicações novas ou usadas. O sebo é o primeiro da região e surge numa época em que as livrarias não resistiram nas pequenas cidades e o acesso ao computador e à Internet avança a cada mês.

Fazer pesquisas, consultar biografias e estudar disciplinas escolares está mais fácil e rápido, a um simples clique na página para que milhares de opções surjam na tela do computador e um mundo diversificado de informações chegue ao pesquisador, mesmo que os estudantes não leiam e se limitem a copiar, colar e imprimir o trabalho.

“Ler bons livros é um hábito que deve ser cultivado e multiplicado”, frisa o livreiro, que quer manter a tradição. “A leitura nos faz viajar por sonhos, situações e lugares diversos e distantes”. Além de livros de literatura e didáticos, há algumas peças de artesanato e diversos quebra-cabeças à venda, com desafio. Quem conseguir montar em cinco minutos ganha o objeto.

MAIS INFORMAÇÕES

Sebo de Eliomar Alves
Rua 15 de Novembro, 173
Centro da cidade de Iguatu
Região do Centro-Sul

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Uma vida feita à mão

 

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A artista cearense Nice Firmeza chega aos 90 anos e celebra a data com a abertura de uma exposição e com o lançamento de um livro de memórias. O evento acontece, hoje, às 18 horas, no Museu do Ceará

Nice Firmeza é um bom exemplo para desvelar o machismo dissimulado na velha máxima de que, “por trás de um grande homem, sempre há uma grande mulher”. Companheira de Estrigas (Nilo Firmeza, artista plástico e crítico de arte), há mais de 50 anos, ela está ao seu lado, compartilhando projetos e ombreando-o em sensibilidade.

No próximo dia 18, ela chega aos seus 90 anos. E comemora da mesma maneira que seu companheiro o fez, há dois anos: com a abertura de uma nova exposição e com o lançamento de um livro de memórias. A comemoração é antecipada, para prolongar a festa. Às 18 horas, no Museu do Ceará, a artista abre a mostra “Bandeiras da Nice” e participa do lançamento de “Conversas com Nice”, livro de Alberto Rodrigues Soeiro, escrito a partir de entrevistas feitas com a homenageada.

Bandeira

Ao celebrar seus 90 anos, Nice firmeza comprova sua discrição. O conjunto de pinturas exposto é, ele mesmo, uma homenagem: ao pintor cearense Antonio Bandeira (1922 – 1967).

São 28 trabalhos inéditos, produzidos a partir de 1994. Nessa época, Nice decidiu experimentar uma criação que partisse de uma obra já existente – no caso, um quadro de Bandeira, que consta no acervo do Mini-Museu Firmeza, galeria particular dedicada às artes cearenses, aberta ao público, mantida pela artista e pelo marido, no sítio onde vivem, no Mondubim. Os trabalhos recriam e reinventam as imagens não-figurativas de Bandeira, com a delicadeza do uso de cores que marca o trabalho de Nice Firmeza.

Trajetória

Nice Firmeza nasceu em 1921, em Aracati. O padre a batizou apenas com o nome de Maria (só aceitava nomes de santos), mas o Nice que a mãe tanto queria imperou em casa. Mudou-se ainda jovem para a Capital, onde se interessou pela arte. Em 1950, iniciou seus estudos no curso livre de desenho e pintura da Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP), quando conheceu seu companheiro de longa data, o então odontólogo Estrigas.

Delicada e inquieta, Nice não se contentou com os gêneros das artes plásticas. Se fez artista, também, a partir dos saberes da tradição popular. Doceira e bordadeira (faz “pinturas” com formas e cores ricas de suas linhas), foi nomeada Tesouro Vivo/Mestre da Cultura, pela Secretaria da Cultura do Ceará (Secult).

Memórias
Conversas com Nice
Alberto R. Soeiro